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Blog de hillvalley1985
 


Para gripe

Ônibus quase vazio. Motorista, cobrador (ou trocador, como queiram) duas senhoras, um senhor e esse que vos escreve. As duas mulheres falavam sobre o clima, a chuva que caia naquele instante, sobre vários outros assuntos. O homem, cabisbaixo, barba grande, branca, de chinelo, parecia que não via a hora da viagem acabar. E eu lá...de olho (ou ouvido?) na conversa dos outros.

- Meu marido há dias está gripado. Já tentei várias receitas, mas nada parece adiantar. E ele não quer tomar remédio - falou uma das mulheres.

- Você já deu pra ele um pouquinho de aguardente, mel e limão?

- Não. Funciona?

- Mulher, é tiro e queda. Faz o teste e me conta depois, tá?

- Certo, vou tentar assim que chegar em casa. E levantaram, pediram parada e desceram.

Eu pensei que só eu ouvia a conversa alheia. Mas o senhor de barba grisalha também monitorava a conversa lateral.

- Essa p*&&@ de receita não funciona, nada. Há mais de quarenta anos que tomo isso, mas de vez em quando eu fico gripado. Às vezes eu penso que é por que eu tiro o mel e limão. Será?



Escrito por hillvalley1985 às 09h22
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Entre Elvis e a mulher de Ló

Esse é um fato real, verídico, de cujas linhas lembrei hoje cedo. O que me fez recordar de tal lembrança foi a comemoração dos 35 anos da morte de Elvis Presley. Espero que vocês me perdoem pela transcrição de mais uma besteira.

Eu deveria ter uns 12, 13 anos. Lembro que frequentava as aulas de catecismo, ministradas pela dona/diretora da escola na qual eu estudava. Além dessas aulas, eu também ia, aos sábados, aos cultos para crianças, na casa de uma evangélica, muito amiga da minha mãe.

Nesse sábado, de muito sol, e eu com a cabeça no campo de futebol, nem percebi quando um pastor entrou na sala. A minha atenção só foi despertada quando ele falou que "o diabo estava em todo canto, em todos os lugares e em muitas pessoas".

Aquilo me deu medo, muito medo. Como crianças, desinformadas e ainda informes para o mundo, é claro que a menção de tal sujeito e das suas façanhas aterrorizou a todos. E o silêncio se fez. E como exemplo, ele citou a morte do rei do rock, Elvis. Cito de cor:

- Elvis tinha muito dinheiro, muita fama. Tinha tudo o que ele queria. Mas ele não tinha Deus. Antes de sair para fazer um show, Deus apareceu para Elvis e disse para ele não ir. Do outro lado da sala estava o diabo, tentando o cantor para que ele fosse. E ficou nesse cabo de guerra até que o rei do rock decidiu ir. Saiu do quarto, e já no corredor, Elvis ouviu uma voz e olhou pra trás. Pronto! Virou uma estátua de sal."

Um "ohhhhh" foi ouvido, uníssono. Ninguém tirava os olhos do pregador. O cara virou sal. E agora? E se isso acontecesse com a gente? E em que situação viraríamos condimento? No mercado, após derrubar alguma laranjas no chão, coloquei quase todas de volta no lugar. Fiquei com uma. Bem azeda, por sinal. E agora?

Já deu tempo para vocês perceberem o que esse cidadão colocou na cabeça da gente? A forma, impactante, além de amedrontar, nos incita a uma dualidade que se materializaria em algum momento. Nem sei dos outros, afinal lembro de apenas umas três ou quatro crianças que estavam comigo naquele dia. Apenas eu me disvirtuei.  

Na semana seguinte, a professora de português pediu para que fizéssemos uma redação, tema livre. Àquele tempo, eu já escrevia tão mal como hoje. E contei a história de Elvis. Passei das 35 linhas. Entreguei por último. Certo da nota 10, quase nem dormi esperando pelo dia seguinte.

E ele chegou. O dia, né? A professora entregou a de todo mundo, menos a minha. Quando acabou a aula, ela pediu que eu fosse à secretaria. E agora?

- Certamante você deve estar ansioso pela sua nota, não é? Você se acha muito bom nisso, né?

- Sim - respondi com tanto medo quanto naquele sábado.

- Você tem duas notas: se um dia você for escritor, e seus escritos se tornarem obras de arte, eu te dou dez. Mas, como sei que, se isso acontecer, eu já nem estarei mais por aqui, pela besteirada toda que você escreveu, sua nota é zero!

Resumindo: Elvis, todo mundo sabe que morreu decorrente de problemas cardíacos. Quem virou sal foi a mulher de Ló. Quem quiser conferir, está tudo lá em Gênesis 19.

Será que a professora tolheu em mim a minha vocação para escritor? Será que ela ainda está viva? Eu poderia levar todos esses textos pra ela, na certeza de que, ao ler, ela pudesse, ao menos, num gesto de desculpa e reconhecimento (???), me dar aquela nota 10.

Mesmo que depois, na minha saída, ela transformasse meus textos não em sal. Mas em cinzas...



Escrito por hillvalley1985 às 21h58
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Um domingo de agosto

Era uma manhã de domingo. Fria, silenciosa e de pouco sol, aos poucos as pessoas se arriscavam a deixar suas casas.Os que não se arriscavam, das janelas contemplavam a bela paisagem que a natureza nunca repetiu. Sempre diferentes as mesmas manhãs.

A luz da sala ainda estava acesa. Ele acordou cedo, mais cedo do que o habitual. Como não se arriscou a deixar o calor da sua casa, da janela admirava aquela manhã como todos os dias, e como todas as vezes fazia.

O silêncio era quebrado apenas pelo cantar dos pássaros, pelo som bem distante de algum rádio e pela passagem de um rebanho. Os olhos compenetrados no horizonte, o pensamento muito além do que a vista alcança.

De repente, passos. Passos curtos, pequenos, quase inaudíveis. Do silêncio total, uma voz doce e suave invade a sala:

- A bença, pai.

- Deus te abençoe, preta.

Tomou a criança nos braços, um beijo no rosto e voltou a contemplar o silêncio, a paisagem e aquela manhã que a natureza nunca repete.



Escrito por hillvalley1985 às 08h48
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